Autores - EntrevistasImprimir

Uma discussão (inter)nacional

Irene Rizzi
"Dedico-me a esta área há quase 30 anos como estudiosa, pesquisadora e militante. Comecei minha carreira trabalhando em verdadeiras prisões para crianças. Eu ouvia as histórias de vida das crianças e queria fazer alguma coisa por elas. Isso me impulsionou a cursar, primeiramente, psicologia.
Com o tempo, compreendi que era preciso conhecer a estrutura e funcionamento das políticas públicas, das instituições que não cumpriam sua parte, embora fossem responsáveis por aquelas crianças".
Twitter Facebook
O(s) Autor(res)


Há mais de três décadas Irene Rizzini, professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio, se dedica à pesquisa e ao estudo de políticas e práticas voltadas para crianças e adolescentes. Àqueles que se encontram em situações de maior vulnerabilidade - como as crianças que vivem nas áreas marginalizadas das cidades, nos bairros pobres, nas ruas e em instituições - são alvo importante de seus estudos.

Psicóloga, socióloga e assistente social, Irene Rizzini é mundialmente reconhecida pelo seu trabalho. Atualmente, é diretora do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI) - referência nacional e internacional sobre o tema, conveniado com a PUC-Rio (www.ciespi.org.br). Ela também é presidente da Rede Internacional de Intercâmbio de Pesquisa na área da Infância (Childwatch International Research Network, Oslo/ Noruega) e do Conselho Editorial de diversas revistas internacionais, entre elas: Childhood, Sage Publications (Trondheim, Noruega/ Londres, Reino Unido) e International Journal of Social Welfare (Estocolmo, Suécia). Em janeiro deste ano, Irene Rizzini representará a PUC-Rio durante o World Social Forum, cujo tema é Children and Youth Growing Up in Contexts of Poverty and Marginalization, a ser realizado em Mumbai (Índia).

A fim de enriquecer o debate sobre crianças e adolescentes que estão à margem da sociedade, Irene Rizzini organizou o livro "Vida nas Ruas: crianças e adolescentes nas ruas - trajetórias inevitáveis?", publicado em 2003 pela Editora PUC-Rio/ Edições Loyola, com patrocínio da fundação Terre des hommes (TdH). A pesquisa que deu origem ao livro foi baseada em entrevistas com crianças e adolescentes em situação de rua no Rio de Janeiro, e contou com a coordenação CIESPI. Do mesmo modo, a Rede Rio Criança apoiou o projeto de pesquisa e a publicação desta obra, que a partir das declarações feitas por essas crianças, contribui com a transformação do pensamento produzido pelo senso comum.

Para 2004, Irene Rizzini prepara - em co-autoria com Irma Rizzini, e com a assistência de pesquisa de Paula Caldeira - outro título que vem somar informações sobre situação de crianças e adolescentes marginalizados: "A Institucionalização de Crianças no Brasil: percurso histórico e desafios do presente" - a ser publicado em breve pela Editora PUC-Rio, com o apoio do UNICEF.

Segundo Irene Rizzini, é possível reverter o cenário de miséria e descaso, evidenciado pelos milhares de meninos que sobrevivem nas ruas das grandes capitais. Para isso, é fundamental que o país priorize as condições de vida da população infantil e juvenil na agenda política nacional. Ela também ressalta a importância do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como um instrumento que estabelece parâmetros de direitos e responsabilidades em condições de igualdade com boa parte do mundo hoje.

Nesta entrevista, Irene Rizzini comenta as perspectivas de crianças e adolescentes que vivem nas ruas, analisa o ECA, discute a menoridade penal, observa o papel das instituições, assim como aponta caminhos para que todos possam construir uma vida digna, plena e igualitária.

item Editora PUC-Rio: Como o tema das crianças em situação de rua despertou sua atenção?

Irene Rizzini: Dedico-me a esta área há quase 30 anos como estudiosa, pesquisadora e militante. Comecei minha carreira trabalhando em verdadeiras prisões para crianças. Eu ouvia as histórias de vida das crianças e queria fazer alguma coisa por elas. Comecei a dar aulas, e soube, pouco tempo depois, que embora aqueles meninos e meninas tivessem pais, eram identificados como crianças órfãs ou abandonadas. Fiquei muito assustada com aquilo e comecei a conhecer as instituições e os problemas daquelas crianças e de suas famílias. Isso me impulsionou a estudar e a cursar, primeiramente, psicologia. Vi muitas crianças morrerem de tristeza - de profunda carência - antes do primeiro ano de vida. Quando me formei, fui contratada por uma das instituições que eu trabalhava para coordenar o setor de psicologia. Defrontei-me várias vezes com o juizado de menores, porque considerava importante que as crianças tivessem chance de sair dos orfanatos e experimentar a vida em família - em suas casas, quando possível e em outras, através de uma rede de voluntários. Com o tempo, compreendi que isso não bastava. Era preciso conhecer a estrutura e funcionamento das políticas públicas, das instituições que não cumpriam sua parte, embora fossem responsáveis por aquelas crianças.

item Editora PUC-Rio: Como surgiu a idéia de se organizar o livro Vidas nas Ruas? A que conclusões vocês chegaram acerca da situação dessas crianças e adolescentes?

Irene Rizzini: Este livro é parte do foco de nosso trabalho no CIESPI, que aborda, sobretudo, as crianças que vivem à margem da sociedade. Como elas vivem, crescem... Buscamos compreender as trajetórias de vida dessas crianças, analisando a história da assistência à infância do Brasil até a atualidade - o que nos permite entender melhor como elas se inserem no mundo contemporâneo. Fomos procurados pela fundação suíça Terre des hommes, e por algumas pessoas que se organizavam para formar a Rede Rio Criança - uma iniciativa constituída por 13 organizações não-governamentais e governamentais que visam melhorar o atendimento das crianças e adolescentes que vemos nas ruas. Eles procuravam um grupo que pudesse realizar uma pesquisa que considerasse a voz destas crianças. A proposta era entrevistá-las e divulgar o que elas pensam, sonham, sentem e visualizam para o futuro. Fomos escolhidos para realizar este trabalho, que culminou com a publicação do livro Vida nas Ruas - crianças e adolescentes nas ruas: trajetórias inevitáveis? Seriam inevitáveis as trajetórias desses meninos e meninas? Nas 70 histórias retratadas na pesquisa, encontramos muitos casos de omissão. E a pergunta que fica é por que se permite que uma criança passe de instituição a instituição, sabendo que muitos danos vão ser causados ao seu desenvolvimento, enquanto poderia ter recebido algum tipo de apoio em sua própria família ou em sua comunidade desde o início da vida? Sabemos que a maioria das pessoas gostaria de poder oferecer um destino melhor aos seus filhos, mas não encontram condições para isso. Isso nos leva a perguntar: quem são os responsáveis pelo fato de as trajetórias de vida dessas crianças serem tão violentas e sofridas? Por que os órgãos responsáveis não conseguem intervir? Por que no Brasil esse assunto ainda não é prioridade absoluta na agenda nacional? É preciso desenvolver políticas integradas que visem o desenvolvimento da população infantil, entendendo-se que se trata do próprio capital humano e social do país. Essas questões são discutidas em nosso trabalho, por meio da análise das trajetórias de vida desses meninos nos dias de hoje. São questões importantes para um país que almeja aprofundar seu processo democrático - é um ponto prioritário para o planejamento do Brasil. Falamos aqui da promoção do desenvolvimento integral de crianças e adolescentes e dos potenciais desta população. É bom lembrar que o Brasil sempre foi um país com uma significativa população jovem: hoje mais de 40% da população têm menos de 18 anos.

item Editora PUC-Rio: Qual é a importância do Estatuto da Criança e do Adolescente e como você avalia a atual discussão sobre a redução da menoridade penal?

Irene Rizzini: Qualquer lei está sempre sujeita a reformulações. O Estatuto da Criança e do Adolescente foi promulgado há mais de uma década. O momento atual é de consolidação e de ambivalência em relação a ele. Consolidação porque, a despeito das controvérsias a lei aí está, claramente implantada em consonância com os parâmetros internacionais de garantia de direitos. A ambivalência - expressa nas vozes de grupos que atacam a lei e outros que a defendem - é, a nosso ver, parte integrante da mudança a ser enfrentada. O velho sistema de 'assistência e proteção ao menor', sedimentado no passado, não vai desaparecer como num passe de mágica porque se passa a conceber a criança como 'sujeito de direitos'. É como se se tivesse que ser a favor ou contra a lei. Entretanto, quando liberados de uma posição de defesa ou de ataque à lei, fica mais fácil percebê-la em sua dimensão real: a de uma simples lei, que não transformará nada por sí só; de um instrumento que depende de outros elementos para promover mudanças de mentalidade e de atitude. Como qualquer outra lei, o Estatuto apresenta contradições, avanços e retrocessos. E nunca satisfará a todos os interesses. Quanto à questão da redução da idade penal, é difícil imaginar que alguém realmente acredite que prendendo crianças e adolescentes nas instituições - que sabemos existir no Brasil - resolverá o problema. É previsível que só ajudará a agravá-lo. A discussão sempre volta à tona diante de episódios como crimes envolvendo menores de idade. É compreensível e isso acontece em todos os países, pois não há respostas fáceis. O desafio tem que ser encarado de frente: a curto prazo, prover recursos técnicos e financeiros para socorrer aqueles que já se desviaram; a médio e longo prazos, melhorar as condições de vida da população para que as pessoas possam criar seus filhos com dignidade e ampliar as oportunidades de desenvolvimento integral das crianças e adolescentes - o que é um direito de todos os cidadãos. Em síntese, é isso mesmo que dizem as leis nacionais e internacionais da atualidade.

Irene Rizzi
"Vida nas Ruas" é parte do foco de nosso trabalho no CIESPI, que aborda, sobretudo, as crianças que vivem à margem da sociedade. Como elas vivem, crescem... Buscamos compreender as trajetórias de vida dessas crianças, analisando a história da assistência à infância do Brasil até a atualidade ­ o que nos permite entender melhor como elas se inserem no mundo contemporâneo".

item Editora PUC-Rio: Comente, por favor, a problemática intrínseca ao termo "menor de rua" e como ao longo do tempo ele foi se tornando pejorativo.

Irene Rizzini: O termo "menor de rua" surge da categoria jurídica de menoridade, que, historicamente, identificava os menores como indivíduos sujeitos à aplicação especial das leis, por não estarem no gozo de seus direitos como cidadãos, ou seja, legalmente submetidos à tutela familiar ou de outros responsáveis. No século XIX, o emprego meramente jurídico do termo cedeu ao surgimento de uma nova categoria social, que ficou conhecida como a dos menores abandonados e delinqüentes. O menor passou a ser identificado como o alvo de políticas paternalistas, voltadas para o controle e a contenção social, especialmente a partir da instauração da República. As instituições estatais tiveram papel decisivo na construção jurídica e social da categoria menor. No princípio, coube ao setor jurídico a sua identificação e análise, dividindo-a em subcategorias que dessem conta da complexidade do universo a ser assistido/controlado. As práticas de intervenção utilizadas no decorrer do século XX foram extremamente eficazes na disseminação do emprego do termo menor, encontrando amplo respaldo social. Isso serviu para criar uma dicotomia entre dois grupos: o de "menores" e o de "crianças/adolescentes", os quais eram percebidos e tratados de forma muito diferente. Estas contradições só foram evidenciadas nos anos 1980, que precederam a formulação do conceito de direitos para a infância e juventude, através da Convenção das Nações Unidas pelos Direitos da Criança e do Estatuto da Criança e do Adolescente.

item Editora PUC-Rio: Há séculos estas crianças têm sido marginalizadas por diferentes instituições. Como você analisa isto?

Irene Rizzini: O nosso próximo trabalho a ser publicado trata justamente da história da institucionalização de crianças no Brasil, à convite do UNICEF. Observamos na pesquisa do livro Vida nas Ruas a trajetória de crianças que saem das ruas para diferentes instituições e os muitos conflitos com que elas se defrontam. Achávamos que após os avanços na área de direitos humanos não voltaríamos a abordar o tema da institucionalização. Mas, a realidade é que muitas crianças, que têm pais, ainda acabam nas instituições. Então, achamos importante recorrer à história a fim de discutir os aspectos de permanência e de mudança destas instituições na atualidade. Privilegiamos o olhar histórico, pois desde o século XIX já se denunciava o fato de crianças estarem nas ruas sem a assistência de suas famílias. O fato é que muitas famílias pobres dependiam do Estado para a sobrevivência de seus filhos, que eram enviados à instituições do tipo orfanato. É claro que nesse processo, houve também crianças que foram beneficiadas, ao terem nas instituições a oportunidade de crescerem em melhores condições do que suas famílias permitiriam. Sem fazer apologia da institucionalização, o que vemos hoje é que o Estado se omite, escondendo-se atrás da lei, que busca proteger as crianças de institucionalizações desnecessárias, e, no entanto, não cria alternativas para aquelas que não têm para onde ir. E cria-se um grande impasse: essas crianças se sentem sem lugar no mundo; crescem desenraizadas, como se não pertencessem a lugar nenhum. Perambulam de um espaço a outro, convivendo com discriminação, violência e preconceito. Suas famílias e as instituições que as abrigam não se vêem habilitadas a responder às suas necessidades. Fala-se muito em reinserção familiar, mas fica-se no nível da retórica, pois é difícil e dispendioso reverter as situações de pobreza e conflito que afligem as famílias destas crianças. Este é um quadro dramático no Brasil e constitui uma perda irreparável de capital humano e social para o país.

item Editora PUC-Rio: Você acredita que esses meninos são "marginalizados" ou "excluídos socialmente"? Estes termos, assim como "menores de ruas", não são, por si só, pejorativos? Não há que se criar uma mentalidade que conceba estes meninos como incluídos, uma vez que se relacionam, de certa forma, com todos os setores do Estado (polícia, instituições, sociedade) - embora lhes falte o acesso à cidadania?

Irene Rizzini: Prefiro afirmar que essas crianças e adolescentes vivem à margem da sociedade. Evito termos como "marginalizados", em "situação de risco" e "socialmente excluídos" para designá-los por dois motivos: primeiro porque todos têm conotações negativas que acabam sendo atribuídas às crianças e adolescentes; segundo porque estes termos são empregados de forma indiscriminada, como se todos tivessem o mesmo significado. Vemos que os meninos nas ruas se ressentem por serem vistos como criminosos, mas, com freqüência, se referem entre si como marginais. Não vejo na atualidade uma discussão teórica clara sobre esses conceitos. A teoria da marginalidade, defendida na América Latina décadas atrás, tinha todo um sentido de ser, porque se refere a uma parcela significativa da população que acaba ficando à margem da sociedade, através dos processos de desigualdade sócio-econômica que caracterizam nossos países. Um termo muito em voga, porem confuso, é o da exclusão social. Ele tem origem no contexto europeu, sobretudo, na França, para designar a população de imigrantes, que também passa por processos excludentes, porém de natureza diferente do Brasil e dos demais países da América Latina. No caso específico de nossa análise, prefiro afirmar que os meninos e meninas retratados em Vida nas Ruas, são o grupo que simboliza ou denuncia mais claramente o processo de marginalização que vivemos historicamente em nosso país. Eles são como a ponta de um iceberg porque são visíveis, incomodam, desafiam. Ao subverterem as normas, pagam um alto preço: muitas vezes, com a própria vida. Como já disse antes, são crianças que parecem não encontrar um lugar no mundo. Porém, o termo "exclusão" não é adequado aqui: eles constituem parte inclusiva de um sistema que marginaliza injustamente uma parcela de sua população.

item Editora PUC-Rio: O que querem estas crianças?

Irene Rizzini: Esta pergunta me remete a um dos pontos mais tocantes de nossa pesquisa. Observamos que as crianças e adolescentes que entrevistamos têm clareza do que está acontecendo à sua volta e mostraram que sabem discernir entre o que é certo e errado. Eles anseiam por aquilo que não tiveram e sabem que nunca terão: uma família, um emprego e um lar. Eles sonham com a estabilidade que não encontram em seu cotidiano. Quando perguntamos o que eles fariam se tivessem poder, a primeira coisa que dizem é que não permitiriam que crianças morassem nas ruas, que todas as crianças deveriam ter uma casa, que fossem cuidadas. Sua maior dor é a discriminação que sofrem nas ruas, pois afirmam que são tratados como se fossem bandidos. Eles têm baixa auto-estima e ainda assim alimentam a esperança por um futuro melhor. E esta é uma diferença em relação às pesquisas realizadas com adultos, onde se percebe forte desesperança. Apesar da realidade que vivem, as crianças têm esperança em mudar de vida. Elas reconhecem o valor da educação e esperam dar aos seus filhos as oportunidades que não tiveram, porque sabem que o estudo é uma ponte para a mudança de vida.

item Editora PUC-Rio: Quais seriam as soluções práticas para promover uma vida mais digna para elas? O problema não está localizado na própria constituição familiar? Não seria necessário dar suportes financeiro, educacional e psicológico também às famílias?

Irene Rizzini: Em nosso trabalho de pesquisa e ação no CIESPI (Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância), temos participado em diversos fóruns de debates, em conselhos nacionais e internacionais, procurando ampliar nosso escopo de influência. Desenvolvemos uma linha de pesquisa, chamada ELOS que busca estudar alternativas de políticas e práticas que visem a preservação dos laços familiares e comunitários das crianças e adolescentes - que são suas principais bases de apoio. Dentro desta linha, temos conduzido projetos que nos dão a base empírica que necessitamos e, ao mesmo tempo, nos permite apoiar iniciativas que beneficiam crianças em algumas localidades muito pobres no Brasil e em outros estados. São exemplos no Rio de Janeiro, o projeto BASES, em parceria com o Instituto PROMUNDO e o projeto Rede Brincar e Aprender. Partimos da premissa de que todas as crianças nascem com muitos potenciais, mas precisam de condições favoráveis para que eles floresçam. As "bases de apoio" são exatamente aqueles elementos que compõem o alicerce do desenvolvimento integral da criança, ou seja todos os recursos em seu entorno capazes de oferecer segurança física, emocional e afetiva para que elas possam se desenvolver. Esse é um direito de qualquer ser humano. Sem os cuidados que dão à criança o sentido de pertencerem a algum lugar (à sua família, seu bairro, sua cidade...), ela cresce como mostramos anteriormente - "fora de lugar" - como se não se reconhecesse como pertencendo a lugar algum. E nenhum indivíduo se transforma num cidadão assim! O sentido de cidadania se dá a partir do processo de desenvolvimento do sentido de identidade da criança, que se reconhece a partir da inter-relação com o mundo à sua volta. O que vemos nas crianças que analisamos em Vida nas Ruas é que elas cresceram em condições adversas, comprometendo todo o cuidado dedicado a elas: relações afetivas fragilizadas e interrompidas com freqüência, instabilidade, insegurança, e assim por diante. Por isso, suas trajetórias eram caracterizadas por uma constante mobilidade: deslocavam-se de um lugar para o outro, mas não se sentiam verdadeiramente parte de nenhum. Não se socializaram como as crianças em geral na família, na escola e em outros ambientes, onde poderiam ser estimuladas a crescer. Isso ajuda a explicar porque para muitas delas a rua exerce tanta atração e até mesmo mais segurança, em alguns casos. Nas ruas, elas se agregam a outros com quem se identificam. Sentem-se mais livres. Ao ouvir algumas de suas histórias, compreendemos que não tinham muito a perder. Esse é o lado pessoal de suas vidas nas ruas. Queremos ressaltar o lado político e social da questão. O fato é que o Brasil não investe adequadamente na sua população infantil e juvenil. Essas crianças que estão nas ruas deveriam ter suas necessidades básicas atendidas. É uma questão de dever sim, de responsabilidade cívica de qualquer nação. E as pessoas que têm em suas mãos a função de criar, formar e educar as crianças deveriam ser valorizadas e instrumentalizadas para cumprirem com seu papel.

item Editora PUC-Rio: Qual a melhor forma de se posicionar, por exemplo, quando as crianças pedem dinheiro ou tentam vender alguma coisa nas ruas? Muitas pessoas afirmam que, ao dar dinheiro às crianças, sentem que, de certa maneira, estão contribuindo para que sejam exploradas por adultos. Qual a validade deste discurso? É tão conservador quanto o de quem afirma que a lei protege bandidos, ou faz algum sentido?

Irene Rizzini: São questões bem controvertidas, aqui e em outros países também. Nenhuma criança deveria estar nas ruas mendigando e lutando por sua própria subsistência, quando não de toda a sua família. Com o tempo, ela terá cada vez mais dificuldade de mudar de vida. O que deve ficar claro é que isso não é um problema só dela, mas de toda a sociedade. Dar um trocado a uma criança na rua poderá aliviar a sua fome, mas não resolverá em nada o problema, que, repito, é de todos nós. Também não adianta acusar a lei simplesmente, como se ela fosse a responsável pela existência dessas crianças nas ruas. A lei existe para defender os cidadãos, de forma justa e igualitária. Enquanto essas crianças que vemos nas ruas não forem respeitadas como cidadãos, é mais fácil atacar a lei do que as verdadeiras causas que levam o país a tamanha desigualdade. É preciso criar políticas públicas que contemplem todos os cidadãos, sem qualquer tipo de discriminação. Muitas vezes ouvi até mesmo em programas de rádio que o Estatuto é bom para crianças suíças, mas não serve para os "menores brasileiros". Será que a criança suíça é melhor do que a que nasce no Brasil? Trata-se de um problema de mentalidade, de uma herança histórica que ainda alimenta uma profunda desvalorização das classes populares.

item Editora PUC-Rio: Comente, por favor, a relação da criança em situação de rua com a polícia.

Irene Rizzini: A questão é muito antiga e continua atrelada à área da Justiça até hoje. O desafio do que fazer para proteger crianças e jovens se mistura com questões de segurança pública, principalmente no caso dos pobres. Há registros de que a polícia vem exercendo o papel de repressão brutal a esse segmento da população desde o século XIX. A questão da segurança pública, infelizmente, ainda é tratada de forma muito distorcida em nosso país. Em termos históricos, a modelo policial de apreensão e identificação de menores foi consolidado e legitimado enquanto função específica da polícia, com o advento da ditadura Vargas, quando, em 1937, surge a delegacia de menores no Distrito Federal - no Rio de Janeiro, na época. Cabia a uma das polícias mais repressoras que o país já conheceu apreender os menores nas ruas, investigar suas condições morais e materiais e de seus responsáveis e abrigá-los até que o juizado indicasse o local para sua internação. Com as mudanças políticas que ocorreram no final do século XX, praticamente toda a América Latina passa por um processo de "redemocratização". As leis voltadas para a população infantil e juvenil refletirão estas transformações e passam a defender os direitos das crianças e dos adolescentes. No entanto, como sabemos, mentalidades e atitudes não mudam por decreto, de forma rápida. As práticas abusivas e violentas perpetradas com o envolvimento de forças policiais ainda sobrevivem, como, por exemplo, no ato de recolhimento das crianças nas ruas. É só acompanhar pelos jornais. Do mesmo modo, as relações estabelecidas entre a polícia e crianças e adolescentes que vivem nas ruas ainda são permeadas pela violência. Esses meninos têm medo da polícia, que muitas vezes pratica o abuso de autoridade.

item Editora PUC-Rio: E a relação das crianças com o tráfico de drogas?

Irene Rizzini: Durante a pesquisa, constatamos a existência de uma desigualdade muito grande em relação às famílias que têm recursos e a população que nós retratamos, ou seja, que vive em condições de pobreza. O envolvimento com o tráfico de drogas é mais intenso entre os pobres, em parte porque para muitos ele constitui uma fonte de renda que contribui para a subsistência. Entre as crianças e adolescentes que entrevistamos, encontramos uma situação inusitada: alguns deles não podiam voltar para casa, porque estavam marcados pelo tráfico de drogas - viam-se como exilados de suas comunidades. Ouso afirmar que essas trajetórias seriam perfeitamente evitáveis na maioria dos casos. Na maioria porque as exceções existem em qualquer país, por mais rico e industrializado que seja, com melhor índice de empregos, melhor qualidade de vida, excelentes programas sociais e assim por diante. O problema em nosso país é que não estamos falando de alguns indivíduos, que, mesmo tendo oportunidades, acabam se desviando - estamos falando de milhões de crianças que nascem perfeitamente normais, cheias de vontade de crescer e que são forçadas a condições subhumanas de vida. Como dizia o Betinho: "a criança é o princípio do fim e o fim da criança é o princípio do fim: essa criança que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama e comida, essa que vive a solidão das noites sem gente por perto, é um grito, é um espanto". O problema do tráfico de drogas e da violência envolvendo a criança e o adolescente é um grande desafio a ser enfrentado no mundo hoje, pois ele está ligado a redes articuladas internacionalmente.

item Editora PUC-Rio: No livro Vida nas Ruas, as crianças em situação de rua são tratadas como um fenômeno mundial. Como podemos, então, avaliar o caso brasileiro. Existe alguma peculiaridade? Como o Estado e as instituições dos demais países se posicionam em relação a esta problemática?

Irene Rizzini: De fato, ouve-se falar de street children em todo mundo, mas com diferentes características entre os países. Nos países industrializados, crianças e adolescentes são às vezes assim chamados quando fogem de casa, na maioria dos casos motivados por conflitos psicológicos e violência familiar. Em países como o Brasil, há uma multiplicidade de fatores entrelaçados com a falta de recursos financeiros e de oportunidades nos locais de origem das crianças, assim como a presença de violência em seu cotidiano. Muitas vezes, o fato de um menino sair de casa demonstra um grande sentido de responsabilidade em relação à sua família. Quando somente as mães são chefes de famílias, as crianças se sentem co-responsáveis pela sobrevivência de todos. Há também aquelas crianças que se drogam muito e buscam a rua como libertação. Enfatizamos este último ponto no livro. Nos países asiáticos e africanos, por exemplo, as crianças também vão para as ruas por conta da pobreza. Como no Brasil, muitas trabalham ou mendigam nas ruas, e com isso têm sua educação prejudicada. Em países com a Índia, as crianças vão para as ruas por motivos semelhantes, mas por haver um sentido de espiritualidade mais presente, parece haver menos influência do tráfico de drogas e menos violência. Na América Latina, a maior parte dos países apresenta situações semelhantes ao do Brasil, porém alguns pesquisadores reportam que há em nosso país um número muito elevado de crianças que vivem nas ruas. Além disso, o assassinato das crianças, na Candelária, e os casos de extermínio de crianças muito divulgados nos anos 90 deixaram marcas negativas. Ficamos conhecidos como um país que permite que suas crianças sejam assassinadas. Por outro lado, pesquisadores e profissionais brasileiros são reconhecidos por desenvolverem iniciativas criativas e somos chamados a debater no mundo inteiro. O trabalho da Rede Rio Criança, no Rio de Janeiro, por exemplo, é inédito, e propõe possibilidades de ações integradas entre as instituições para melhorar atendimento à criança em situação de rua.

item Editora PUC-Rio: Quais são seus próximos projetos?

Irene Rizzini: Estou à frente do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI), que, desenvolve projetos com abrangências nacional e internacional e na presidência da rede de pesquisa Childwatch International. Na PUC-Rio, como parte do corpo docente do Departamento de Serviço Social, venho procurando integrar minhas atividades de ensino, pesquisa e extensão para incentivar em meus alunos o interesse em aplicar os conhecimentos em teoria e pesquisa social que adquirem no curso para aprimorar suas práticas profissionais. Tenho muito orgulho de estar neste departamento, pois acho que tem tido um papel valioso na formação de profissionais competentes, particularmente aqueles que têm origem em comunidades de baixa renda. Quanto aos planos para projetos de pesquisa e extensão, venho atuando com uma equipe fantástica de profissionais e estudantes de várias áreas do conhecimento, priorizando metodologias e ações que promovam o desenvolvimento integral da criança em seus contextos familiares e comunitários. Estamos trabalhando arduamente em parceria com o UNICEF e outras organizações para mapearmos iniciativas, metodologias e ações que visem a permanência da criança junto à sua família/comunidade, com o objetivo de criarmos um banco de dados nacional que nos ajude a identificar o que já vem sendo feito com sucesso em diversas localidades. A proposta é coletar dados que nos permitam apontar diretrizes e princípios que ajudem municípios e estados a formular políticas públicas e ações que apóiem famílias e comunidades a manterem suas crianças em condições que propiciem o seu desenvolvimento. Apesar da ênfase dispensada às crianças em situação de pobreza, há uma área de projetos específicos do CIESPI que gostaríamos de ampliar, que inclui crianças das camadas médias da população. Como exemplo posso citar o projeto que estuda os impactos da mídia e de novas tecnologias na vida de adolescentes e o projeto que aborda o sentido de cidadania em crianças e adolescentes, no Brasil e em diversos outros países. Consideramos que não apenas as crianças nascidas em condições de pobreza deveriam ser consideradas em "situação de risco", mas também aquelas que, apesar das boas condições financeiras, vivem de forma segregada, como por exemplo, aquelas que só podem brincar em seu condomínio fechado ou não têm permissão de usar transporte público por que é perigoso estar na rua. Na verdade, essas crianças e jovens estão crescendo de forma isolada e segregada em relação a outras crianças com realidades de vida diferentes das suas. Em síntese, todas as condições que afetam a vida das crianças e adolescentes são de interesse do CIESPI. Nossa meta é traduzir o que pesquisamos e aprendemos através dos projetos em informações que subsidiem políticas e práticas, com o propósito de ampliar as oportunidades para crianças e adolescentes e melhorar suas condições de vida. Esperamos, desta forma, poder contribuir para o planejamento de políticas e práticas que efetivamente beneficiem as crianças e suas famílias em todo o país. Quem desejar estabelecer contato comigo pode enviar um e-mail para rizzini@hexanet.com.br.

Voltar

 

Site desenvolvido pelo RDC.